Às vezes cansa...
Cansam portas fechadas, chaves que não abrem as portas fechadas, a angústia por ainda não se saber como abri-las. O repetido surgimento do não quando a nossa vida prepara incansáveis banquetes de boas-vindas para o sim. O quase, que se prolonga tanto que causa a impressão de ser interminável. E, à espreita, sempre a acompanhar os movimentos da nossa coragem, à distância, a perigosa perspectiva do nunca, aguardando cada brecha criada pelo cansaço para nos tentar dissuadir dos nossos propósitos.
Às vezes cansa, sim…
E parece que somos incapazes de mais um único passo fora do território do nosso cansaço. O ânimo desaparece sem deixar vestígios, pegadas na areia que nos levem até onde as suas águas fluem. Sabemos que ele permanece lá, em algum lugar que temporariamente não temos acesso, como o sol por trás de nuvens que querem chover mas não conseguem. Sabemos que ele está lá e que precisa apenas de um tempo para se recompor. Para soprar as nuvens e voltar à cena. Para retomar o caminho connosco. Para nos lembrar outra vez, depois de outras tantas, que, aconteça o que acontecer, sob hipótese alguma queremos desistir do que nos importa.
Às vezes cansa…
Não há nada que possamos dizer que nos revitalize, de imediato, a crença na nossa capacidade de transformação. Nem sequer nos conseguimos ouvir a nós mesmos, a comunicação é interrompida pelos ruídos momentâneos da negatividade. Aquela conversa fiada mental que não nos leva a nenhum lugar, o olhar estreito que não vê coisa alguma além do nosso próprio desânimo. Esse cansaço às vezes é acompanhado por uma tristeza muito dorida, que pede o nosso melhor abraço; outras, por uma raiva que se pode fantasiar com um monte de disfarces. Quando nos cansamos em demasia, o coração não canta, as cores desbotam, o tempo arrasta-se pelos dias como se estivesse preso a imensas bolas de ferro.
Às vezes a vida cansa. Pele apagada, olhos sem brilho, pés doridos, os ombros doridos pelo peso que carregamos...Sorrisos apagados.
Estou cansada***