sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Caixa da tristeza...

Dizem que há uma caixinha dentro do peito onde a tristeza se guarda. Gostava de a encontrar, mas como nem sequer sinto o peito, é um bocado complicado. Eu até tenho um coração saudável, com as aurículas e os ventrículos que sabem o que fazem, artérias vastas e seguras como auto-estradas com via verde e pulmões de nadador salvador, mas como há muito tempo que não sinto o sangue estremecer, não tenho peito, se o peito é aquele lugar onde a alma repousa e se acende, se o peito é onde dói quando se sangra de saudade, se é no peito que se ouvem as batidas mais rápidas que nos fazem sentir mesmo vivos.

Desde que deixei as minhas estrelinhas sagradas, a minha bandeira, o meu mar, os meus pais e irmão, os meus amigos, A MINHA VIDA que estou assim.

A minha mãe que quase nunca demonstra aquilo que lhe vai na alma agarrou-se a mim duma forma que quase ainda consigo sentir o seu cheiro, o meu mano, o meu benjamim não me conseguia largar à medida que as lágrimas iam caindo e me dizia "Adoro-te", o meu mano mais velho disse-me ao telefone estes dias depois da nossa despedida dolorosa que tinha ficado desorientado, os dois amigos que me acompanharam ao aeroporto....não tenho palavras.

Quando com um choro sentido, dorido, me despedi das minhas estrelinas e lhes disse entre soluços e abraços a célebre frase do nosso Raúl Solnado "Façam o favor de serem felizes" perdi a noção do tempo e do espaço, olho para o céu e vejo lá o mar, olho para o mar e vejo outro mundo qualquer e quando saio à rua numa cidade que não é a minha e num país que não é o meu, não consigo ver o mar no céu e o mar não o vejo mesmo em lado nenhum.

Já nem me lembro quem canta "stuck in a moment", já não me resta nada além dumas vozinhas tristes do outro lado do telefone e que me apertam tanto...

Dá-me vontade de chorar, mas como as lágrimas também saem da mesma caixinha, os olhos ficam secos e ainda me sinto mais vazia.

Ter TODA a parte de nós que pertence a duas estrelinhas sagradas é uma coisa muito estranha e eu não quero viver assim, prefiro cruzar os céus e abraçá-las para nunca mais largar.

Por isso, vou cruzar os céus comigo, atravessando a vida com a morte, atravessando a parede da cozinha onde o relógio marca uma hora a mais, onde a vida dos outros começa cedo e acaba mais cedo ainda... atravessando outra vez o meu peito e pode ser que então, nesse momento eterno e irrepetível que é e será o nosso reencontro, a caixa se abra e escoe finalmente toda a tristeza que carrego no peito que não sinto...

SAUDADES.......................................