A vida ensinou-me já por algumas vezes a não olhar para trás. Mas não por medo, ou por vontade, até porque o tempo, que dizem que tudo apaga, só serve para nos roubar as horas e gravar na memória os melhores e os piores momentos.
E ficamos presos lá dentro, como os passarinhos em gaiolas, enquanto a vida corre lá fora, e os outros respiram e se movem em liberdade, sem sequer reparar que estamos ali fechados em nós mesmos, presos numa gaiola que nos mostra o mundo onde não conseguimos viver.
E, como o presente não passa de uma prisão dura e pesada, já basta o esforço de a aguentar, por isso o passado torna-se um lugar dificil que só rouba mais tempo.
Quando penso em ti, lembro-me sempre daquele beijo na face de raspão numa noite de música, lembro-me daquele abraço forte naquela tarde que antecipava um natal diferente. Lembro-me também que senti medo, um medo enorme quase infinito e que desaparceu de imediato naquele abraço. O teu olhar tranquilizou-me e a tua voz era um bálsamo de doçura e magia e senti que tudo estava certo e por isso, quando passavas muito devagar as tuas mãos pela minha cara e ficavas a nadar nos meus olhos era como se me levasses para um lugar qualquer só nosso e se calhar era por isso que te dizia que confiava em ti e que em muito tempo consegui adormecer tranquila e serena, porque te tinha cá dentro e pensava que podia ser assim para sempre.
Hoje, sem nada saber, o que desperta dúvidas e me traz de volta os meus medos, fecho os olhos a custo e tento não pensar em nada para não pensar o quanto dificil é.
Volta a vida a ensinar-me a aceitar em vez de querer, a dobrar a tristeza sem nunca deixar de te amar. Sei que hoje, quando me deitar e tentar adormecer na cama imensa onde me falta um corpo, uma respiração, o último olhar do dia pousado na minha pele que parecias conhecer desde sempre...voltarei a sentir-me presa na gaiola por onde espreitarei a vida passar e sentirei a solidão tomar conta de mim novamente...